31/01/2022

Prazer sem Culpa

PRAZER SEM CULPA

Preciso confessar uma coisa. Faz muito pouco tempo que senti prazer sem culpa pela primeira vez. Faz muito pouco tempo que consegui tocar meu corpo sem que a vergonha me invadisse por completo. Há pouquíssimo tempo consegui comunicar ao meu parceiro, pela primeira vez, as minhas vontades, os meus desejos.

Passei mais da metade da minha vida segurando o grito de alegria, prendendo minhas mãos para não demonstrar a intensidade do meu querer, silenciando aquilo que me libertaria.

Eu descobri muito cedo a satisfação que meu próprio corpo é capaz de oferecer. Mas muito cedo, também, aprendi que esse era um território proibido. Que mulher não podia fazer amor com ela mesma. Que o meu lugar era o de servir e nunca o de receber.

Não. Eu não parei de me tocar por isso. Ainda que, depois de cada cume de prazer eu me visse numa queda livre de culpa, vergonha e medo, algo me convidava a seguir nessa jornada. A cada encontro comigo mesma, eu me deparava com uma partezinha que esteve até então encoberta. A cada lágrima que escorria de mim, me sentia mais próxima da minha essência.

Foi então que eu entendi que os bloqueios colocados entre mim e o meu deleite eram, em verdade, o que me impedia de me conectar com a minha potência. Que mergulhar no meu prazer era também uma forma de autoconhecimento. Porque a culpa não nasceu comigo. A vergonha e o medo, também não. Mas o meu corpo, cada receptor sensorial, o gozo, sim.

Quando esse véu é desfeito, não é possível permanecer no mesmo lugar. Quando me entreguei àquilo que me é tão íntimo, descobri um caminho sem volta para a liberdade.

Não é um processo fácil. A culpa, a vergonha e o medo estiveram alojados por muito tempo nas profundezas de quem sou. Mas a cada dia os observo ocupar um espaço menor. Hoje sei que mereço gozar da vida e fazer de cada dia um grande regozijo.

 

 

TEXTO: SOFIA MENEGON